06 junho 2009

Análise do filme A Guerra do fogo

Conceito de Verdade

A tecnologia de alguns grupos era dependente do fenômeno natural para ter fogo, motivo este que faziam um grupo brigar com outro para conseguirem o fogo. Para eles, o fogo era um elemento divino, sabiam contemplá-lo, mas não criá-lo, era a garantia de sobrevivência, pois se esquentavam e espantavam os animais ferozes que quisessem atacá-los e levar seus alimentos, onde podiam cozinhá-los e não precisavam comê-los crus e, consequentemente, experimentar outros sabores que até então não conheciam. Alguns destes grupos relatados no filme vivam migrando de um lugar para outro, perdendo assim sua identidade cultural e criando outra, mesmo que levassem seus pertences, tinham que começar do inicio para ter sua característica cultural, permanecendo apenas na memória o que viveram e aprenderam.
No inicio do filme, não havia o respeito e amor pela mulher, pelo animal e pelo grupo, agiam como animais, alguns grupos ainda não tinham uma visão de amor pela mulher, agiam por impulso em qualquer situação. Três tribos diferentes tecnologicamente aparecem, uma das tribos era menos evoluída, se pareciam com os macacos, pois possuíam o corpo coberto de pelos e a pele escura, se utilizavam apenas da força física para atacar os outros, sua verdade era ter o fogo para se esquentar e se alimentar; havia um segundo grupo que também se utiliza do fogo, sabiam como fazer para que não apagasse e mantinham um ritual para mantê-lo aceso, eram dependentes do fenômeno da natureza para ter fogo, por último, temos uma tribo mais evoluída, já quase sem pelos, com a aparência mais parecida com as atuais, mantinham laços afetivos entre os membros, construíam cabanas, como as de índios, enquanto os outros ainda viviam em cavernas, tinham rituais religiosos, como o uso de máscaras, ervas medicinais, se esquentavam com terracota, sabiam dar risadas e utilizavam a dialética melhor e mais clara, utilizavam os recursos que a natureza disponibilizava para eles, se relacionavam intimamente de forma mais humana e natural, como hoje se conhece, enquanto outros grupos não entendiam quando uma mulher se deitava no chão e, finalmente, dominavam a técnica de criação do fogo artificialmente, era um grupo independente.
Em termos de linguagem, o primeiro não está muito longe dos demais, emitindo gritos e grunhidos quase vocálicos, uma comunicação do homem, que é capaz de expressar suas paixões, como a dor e o prazer. Já último grupo parece ter uma comunicação mais complexa, com maior número de sons articulados, mas há outros elementos culturais, como habitações e rituais, que denotam um maior grau de complexidade de um grupo para outro, deixando evidente diferentes culturas e conceitos de amor, de grupo e de companheirismo. Entretanto, não havia a superioridade entre as culturas, a intenção em separar os grupos em avançados e menos avançados não significa que um grupo é melhor que outro, nem que é superior a outro, pois cada um tinha valores e culturas diferentes, de uma perspectiva filosófica observamos no momento em que ele, o líder dos três, domina uma arte, como por exemplo, a técnica para produzir fogo, liberta-se da dependência de um fenômeno natural e ter que preservá-lo, para criá-lo, trazendo para de si e seu grupo a famosa frase filosófica, “faça você mesmo”, mudando a partir de seu conceito de verdade absoluta de que tinham que preservar o fogo aceso para então, criá-lo.
A tocha foi apagada por acidente durante a caminhada em busca de um novo local para ficarem, e três guerreiros ficam responsáveis em buscar uma nova fonte de calor. Um que parece liderar o grupo passa a impressão de ser o mais esperto e curioso dos três. Durante a jornada, salvam uma mulher da outra tribo, mais avançada tecnologicamente, que consegue criar fogo artificialmente a partir do atrito com as mãos em gravetos, o que provocou uma briga pelo poder do fogo, a partir de então, ela começa a ensinar um pouco do que sabe sobre um novo sentimento, o amor, e fazê-lo querer apenas uma companheira, quando ela vai embora, ele vai a sua procura, neste momento, pode-se notar que ele está apaixonado por ela, seus sentimentos começam a mudar, pois antes de conhecê-la não sabia o que era o amor por uma mulher. Ele aprende a seguir os pássaros, lá ele aprende também o amor entre os membros do grupo, o companheirismo que eles têm uns com os outros, lá observa-se também a união do grupo, diferente da união do outro grupo, que era mais pela sobrevivência, enquanto neste grupo, havia um conceito de grupo e de cultura diferenciado, pois viviam em apenas um único lugar, enquanto o outro grupo, viviam mudando de um lugar para outro, acabando assim, com toda a cultura criada até o momento em que mudaram.
Então, quando este herói foi levado a tribo, lhes deram comida e uma mulher da tribo deitou-se a seu lado, um costume deste povo e de sua cultura, com um relacionamento mais humano, como ele não entendeu o motivo dela estar deitada ao seu lado, quando ela ficou de quatro, então compreendeu qual era a intenção dela, e a tribo vendo esta cena, começaram a rir eufóricos, pois para eles, sexo ainda era algo muito curioso, esta é uma das cenas que indica a diferença cultural entre ambas as culturas. E, segundo estudiosos de antropologia cultural, o homem tende a se adaptar ao ambiente em que vive, no caso deste herói não é diferente, pois no tempo em que permaneceu lá, foi aculturado aos poucos, mas que podemos perceber nitidamente, antes de fugir com seus companheiros e a mulher amada, que já se vestia, agia e partilhava da cultura deles, absorvendo para si, todo conhecimento obtido lá.
Convivendo com eles, foi exposto a várias tecnologias, seus costumes, cultura e religião, sobre os lançadores de flechas, ensinaram inclusive a criar fogo, o que observou atento e curioso, com desejo de saber mais e mais. A memória é elemento muito importante em uma comunidade, pois relembrar o que houve há muitos anos atrás e a necessidade de ter uma moradia fixa, pois ela protege o grupo e não precisam mais ficar vigiando o fogo, pois sabem como fazer para criá-lo novamente, inclusive preservar sua cultura. Sua caminhada faz com que mude a forma de pensar e agir com respeito, pois quando o herói se próxima e olha nos olhos do animal por algum momento, abaixa a cabeça em sinal de respeito e em seguida, levanta o alimento e se afasta, demonstra amor e respeito pelo animal e pela natureza. Quanto mais ele conhece, mais passa a sentir a necessidade uma moradia fixa.
A aculturação acontece quando alguém muda de ambiente, seus atos e suas ações e passam a agir, consciente ou inconscientemente, conforme o espaço em que passa a viver, a paixão e o conceito do herói em relação a comunidade muda, o conceito de grupo se aperfeiçoa, passa a conhecer o amor entre os membros de seu grupo e entre um homem e uma mulher, e, agora que pode perceber e entendê-lo, sai do comportamento animalesco e passa a agir como ser humano, pois os vários obstáculos enfrentados e novos conhecimentos foram absorvidos, fato que o fez sair de um estado de domínio para um estado de relações emocionais. O homem é capaz de mudar e este filme relata a trajetória de um herói que aprendeu muito com seus desafios para encontrar uma nova fonte de fogo, pode mudar em diversos sentidos, tanto pelo conceito de grupo e sociedade, quanto pelo respeito e amor ao próximo, este herói foi despertando em si, um desejo de querer saber mais e mais e levar estes conhecimentos em benefício de seu grupo. A princípio, sua linguagem pode ter sido apenas gestual, mas descobriu que os sons também poderiam ajudar na comunicação, o  
que facilitou uma informação mais complexa, não apenas pelo gesto, pois era difícil se comunicar desta forma, tal como pode perceber quando a mulher de outro grupo tentou avisá-los que sua aldeia ficava no sentido oposto, mas ao final, quando ela alerta sobre as fossas que cercam a aldeia durante a fuga, consegue se fazer entender.
Em uma parte do filme, ela ri quando uma pedra cai na cabeça de outro integrante do grupo, mas os outros não sabem qual a informação que ela esta tentando transmitir, mais tarde, quando estão no caminho de volta e com a carga adquira por eles é bem maior do que antes e quando o outro joga uma pedra na cabeça de seu colega, todos acham graça, inclusive o que levou a pedrada. Com o decorrer do filme, observamos que, após matar o inimigo, eles passam a por em prática o que aprenderam em sua jornada, a não precisar ter que preservar o fogo acesso, pois com a ajuda da mulher, que era a mais inteligente do grupo, como se faz fogo, a usar a natureza com a fonte de calor e não mais usar a pele de animais, a ter respeito por eles.
Depois de serem aculturados, aprendem com a tribo e passam a ter outra visão e nova tecnologia e conceito de verdade, pois antes, sabiam apenas a cultuar o fogo como um elemento divino e passam a usar a natureza a favor deles. Então quando fogem durante a noite, continuam sua caminhada, usando a terracota para se esquentarem tem mais agilidade e passam a usar flechas mais leves para matar o inimigo e assim ficar na liderança. Quando finalmente chega, faz uso não só corporal, como também dialética, como forma de poder, ele faz uso da dialética e da nova técnica para criar o fogo, como ele não consegue, a mulher que sabe como fazer, o ensina. Quanto à relação afetiva e sexual entre o casal principal mudou, pois ela ensina uma nova forma de se relacionar sexualmente, o que nos mostra explicitamente outra passagem deste herói, de uma relação de dominância a uma relação emocional. De volta a sua tribo, um deles narra com mímicas, imitações e algum tipo de linguagem verbal toda a aventura pela qual passaram, principalmente o encontro com os mamutes.
A cultura de um povo para outro muda, pois um grupo possui um conceito de verdade diferente do outro, um sabe apenas como preservar o fogo, outro já sabe como criá-lo e possuem um domínio sobre a dialética bem melhor que o outro, porém não significa que um grupo é superior a outro, pois cada qual tem seus valores, seus costumes e sua cultura. Ele, então, aprende também a rir com o tempo em que permanece dentro desta comunidade, aprende a viver como eles, aculturado dia a dia e tratado de igual para igual. A realidade para um povo é diferente para outro, cada grupo agia de uma forma diferente e quanto mais ele aprendia em sua caminhada, mais inteligente ficava e quando volta passa a por em prática tudo o que aprendeu, principalmente, como criar fogo e como se esquentarem sem precisar das peles, usando apenas os recursos da natureza. Agora que sabe que a terracota esquenta e é mais leve, tem mais agilidade para se defender daqueles que o ameaçarem, deixando de utilizar madeira pesada, para usar flechas. Ao final do filme, aparece acariciando o ventre de sua amada e observando a lua, ele parece haver despertado o poder da contemplação, a virtude necessária para desenvolver saberes contemplativo ou teórico. A contemplação dele o destina para o aprendizado da razão, agora o herói agora possui algo que o difere dos outros animais, ele possui algo que o que o define humano, em outras palavras, este homem foi aculturado, pois o ser humano tende a se adaptar ao meio em que vive de forma direta ou imposta, ele aprendeu muita coisa que poderia levar ao seu grupo, como por exemplo, a gargalhada e a dialética.
Agora que finalmente tem sua única companheira grávida, inicia a partir de então, uma nova cultura, um novo conceito de verdade, no qual saem do estado animalesco e dominador, para um estado mais humano e companheiro, com sentimentos mais aprimorados, sem a necessidade de brigar pelo fogo e de mudar de um lugar para outro, pois agora pode criar cabanas, como uma moradia segura e formar uma nova família de amor, alegria e mais inteligente.
Enfim, passa a usar melhor a dialética com seu grupo para impor respeito e ser o líder do grupo, mostrando que não precisam mais brigar pelo fogo, pois agora podem criá-lo, são independentes, não precisam idolatrar o fogo e cultuá-lo, mostrando também ao grupo como fazê-lo e como não consegue, a mulher, que é a mais sabia deles, ensina-os, a partir de então, ele passa a agir de forma diferente, não age mais como animal e tem mais sentimento, pois aprendeu que pode ter apenas uma companheira, aprendeu a amar e agora tem um filho, o que demonstra que já conhece o amor e aceitou a diferença entre eles.
Segundo Todorov em uma citação de Kant, diz que ele reduzia nossos em dois, o amor pela vida, para a conservação do individuo e o amor sexual, para a conservação da espécie, desta forma, percebemos que o protagonista muda sua forma de pensar por influência da mulher no decorrer do filme, pois é um ser inteligente e curioso, e ela o ensinou a ver a vida e o amor de uma forma mais humana, e quando volta a sua tribo, busca consciente ou inconscientemente o reconhecimento por seu esforço e empenho, pois leva a eles uma nova fonte de tecnologia, a criação do fogo, o uso de materiais da própria natureza para sobreviver, assim como nos diz que “o reconhecimento pode ser material ou imaterial, da riqueza ou das honrarias, implicando ou não o exercício do poder sobre as outras pessoas”, que foi exatamente o que o herói fez, matou seus rivais para não ter problemas posteriores, consciente ou não sobre o poder que teria ao levar as novas tecnologias, ele buscava fogo quando saiu de seu grupo, mas no decorrer de sua caminhada, foi despertando uma sede de saber e reconhecimento ao voltar mais sábio, entretanto, foi a mulher, ser inteligente, quem demonstrou-lhes como criar fogo com o atrito das mãos nos gravetos, tornando-os independentes dos fenômenos da natureza para sobreviverem. Assim, o grupo menos avançados viviam e agiam daquela forma, pois eram os valores e a verdade imposta para eles, “os traços culturais agem e reagem entre si de acordo com o princípio de causa e efeito”. A cultura do grupo do protagonista, antes de conhecer o outro ser mais avançado tecnologicamente, é o que é, pois sua cultura era assim, no final do filme suas atitudes são mais humanas, pois sua companheira está grávida e estão contemplando a lua e acariciando a barriga de sua amada, o que nos demonstra que uma nova era, a partir deles estava por vir, uma nova forma de amor a si e ao próximo, o respeito a natureza e aos animais.